Sobre Carrie White, Kevin Khatchadourian e o Mal



Assédio moral sempre existiu no mundo, assim como fome, guerras e doenças, mas apenas nas últimas décadas esse assunto vem sendo visto com mais atenção, o famoso bullying.

Em 1974 foi lançado o primeiro livro do Stephen King, "Carrie, a Estranha", um livro tão intenso e tão cru que ainda hoje SK diz sentir certo desconforto com ele (e isso vindo dele realmente significa alguma coisa). Escrito na forma de fragmentos de cartas, jornais e relatos acerca de uma certa catástrofe, que vai sendo explicado ao longo do livro, faz o leitor se sentir acuado por uma noção de realidade. E o conteúdo do livro só contribui pra isso. Carrie é um dos livros mais proibidos nas escolas estadunidenses, e até seu primeiro filme, de 1976 por Brian de Palma, foi proibido na Finlândia. Credenciais ditas, vamos ao que interessa.

Carrie White é uma adolescente com uma vida um tanto opressiva. De um lado temos uma mãe com um fanatismo religioso que ultrapassa qualquer limite de aceitação e um comportamento de abuso psíquico com sua filha, de outro temos sua vida escolar, que consiste em humilhação, submissão e assédio moral. Logo no início temos uma cena muito marcante, Carrie no vestiário após a aula de educação física tem sua primeira menstruação. Ela nunca tinha ouvido falar disso, o que a apovorou, e as outras meninas começaram a rir e jogar coisas nela, enquanto ela nem tinha ideia do que estivesse ocorrendo em seu próprio corpo.

Daí a história acrescenta um ponto incomum (já que é um livro do SK, não podia ser diferente), e Carrie descobre que tem telecinese (capacidade de mover fisicamente um objeto com a força psíquica, fazendo-o levitar, mover-se ou apenas ser abalado pela mente). Enquanto isso, o baile está chegando (como qualquer típica história de high school), e Carrie é convidada por um cara legal e fica super empolgada, mas o que ela não sabe é que algo está sendo tramado contra ela... junte os pontos e você terá a receita para um perfeito desastre: expectativa + humilhação extrema + telecinese.

Nós não vemos muitos adolescentes telecinéticos por aí, nem temos bailes nos moldes dos Estado Unidos, mas todos sabemos que existe maldade. E o mais interessante é o conflito moral que histórias como essa despertam em nós: Carrie matou muitos, mas é impossível vê-la como uma pessoa ruim na história. O filme Dogville, de Lars von Trier, tem algo semelhante: o filme é composto de uma forma que assassinato e vingança nos causam um sentimento bom. Mas por que isso acontece?

O reconhecimento do mal é algo instintivo, e, às pessoas com valores morais estabelecidos, causa repulsa. No caso da Carrie, após lermos sobre todo o seu sofrimento, por parte de sua mãe (que de onde supõe-se que viria um mínimo de afeto) e pelo bullying intenso na escola, ela é enxergada como uma figura de vítima, e desperta uma empatia natural; e a indignação que sentimos em relação a esses outros personagens nos fazem reconhecê-los como o mal. E é esse conflito moral que torna a história tão intensa e perturbadora.

Diferente de "Precisamos falar sobre o Kevin", de Lionel Shriver. Kevin também mata muitos colegas de escola. Olhando apenas esse fato, não vemos diferença. Na verdade tem sim, Kevin mata menos pessoas. Mas tendo contato com o personagem sabemos imediatamente que ele representa o mal, diferentemente de Carrie. Requintes de crueldade, planejamento da sua carnificina, ausência de emoções... um personagem com quem não conseguimos empatizar.


Transpondo o conflito moral Carrie X Kevin para nossa realidade, isso não deixa de me lembrar um "evento" (vamos chamá-lo assim) que existe desde que o homem se institui como sociedade, mas que ultimamente vem ganhando espaço na mídia que vem evidenciando justamente o lado mais frágil acometido: as crianças. O assédio moral é um ato de violência feito repetidamente por uma pessoa em posição de real ou aparente superioridade hierárquica. Seja por um chefe que humilha seus subalternos, seja por uma autoridade que abusa de seu poder, seja por uma criança mais popular na escola.

Em relação as crianças eu penso que esse assunto é mais grave por uma série de motivos: ela pode não conseguir perceber por si só essa violência como sendo algo inaceitável, mas encara como natural, por nunca ter vivenciado outra realidade; ela não tem estrutura mental para lidar com o sofrimento imposto de forma repetitiva e brutal; ela geralmente não conta para nenhum adulto que poderia intervir de alguma forma, por sentir vergonha, medo, ou mesmo achar que aquilo que os abusadores dizem é verdade, e se vê como uma pessoas desprezível; e por estar em fase de formação de sua personalidade, de seus valores morais, e da forma como irá encarar o mundo ao longo de toda a sua vida.

Dessa forma, se olharmos para adultos que sofreram essa forma de violência quando eram crianças, é comum vermos pessoas com baixa auto-estima, com problemas com ansiedade e alguns com problemas com drogas (quando encontram isso como um falso e momentâneo caminho de fuga da realidade). Da mesma forma os abusadores são preocupantes. Encarar a violência como algo natural, e passar a se enxergar como sendo superior aos outros, em uma fase em que a criança está aprendendo como funcionam as relações sociais e como é seu papel no mundo, é uma coisa que se perpetua na vida adulta. Um comportamento desse, se não corrigido o quanto antes, cria um adulto com problemas em entender a sociedade e seus mecanismos naturais de regulação. Um adulto violento, egoísta, e com um narcisismo completamente disfuncional.

Tanto os personagens Carrie e Kevin causaram muitas mortes. Assim, penso eu, essa violência deve ser pensada de uma forma global: deve-se cuidar da vítima e tentar reestabelecer sua auto-estima e uma noção de um mundo sem medo intenso e constante; corrigir o comportamento do violador, a fim de impedir que encare a violência como algo banal e corriqueiro; e o meio, que permite que essas relações de crueldade sejam estabelecidas livremente e que perpetua esse sofrimento.

4 comentários:

  1. Muito legal o post!

    Já vi o filme antigo da Carrie e quero muito ler o livro!

    Concordo com seu ponto de vista, acho que nos apegamos à Carrie porque vemos ela sofrer...

    Beijão!

    Piece of My Heart

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  2. Adorei o post *-* Foi muito bom!
    Estou ansiosa para ver o filme Carrie que vai sair este ano.
    Já vi o trailer inúmeras vezes, mas não consigo odiar a Carrie...
    Você esta completamente correto, como ela sofreu nós não consegui-mos odiá-la.
    Mas, é verdade que o escritor disse que, o livro era desconfortável para ele? o:
    Beijos, BlairC Fanfics

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  3. Vi o filme mais antigo da Carrie e também vi recentemente o do Kevin, não sabia que havia o livro!
    Bj S

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  4. Renato, amei o post!
    Seu texto está incrível, muito bom mesmo!
    Carrie eu só assisti ao filme, e preciso dizer que foi a única estória do Stephen King que gostei...
    Quanto ao Kevin, que história arrepiante! Já assisti ao filme e li o livro e, francamente, fiquei chocada!
    Vejo uma diferença brutal entre os dois, até porque o Kevin já nasceu psicopata, na minha opinião, e a Carrie só teve um momento de raiva decorrente do excesso de humilhação que passou (claro que não justifica, mas dá para entender até né!)

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