Há Literatura depois do e-book?



A Biblioteca de Alexandria tinha claramente um objetivo: reunir todo conhecimento existente na terra, o que naquele tempo significava uma cópia de cada manuscrito que existisse em nosso pequeno planeta, e o que em nossos tempos significaria um exemplar de cada livro já publicado. O projeto na antiguidade não vingou, mas talvez na atualidade estejamos bem próximos de realizar aquele sonho.

Quase dois mil anos depois surge entre nós o e-book. Espécimes de rara versatilidade e ainda não totalmente compreendidos, os tablets, computadores e e-readers chegam com uma proposta bem clara: e se o sonho de Alexandria pudesse acontecer agora? Aqui, com você, neste instante? E se você pudesse ter acesso a todos os livros já criados, o que você faria?

O historiador Roger Chartier afirma que essa é apenas mais uma entre as diversas mudanças da história do livro, o formato já viu diversas outras. Chartier é especialista na história dos livros e das práticas de leitura, consequentemente um dos nomes mais procurados para falar das mudanças decorrentes do advento das novas tecnologias acerca dos livros. Antes de dar qualquer opinião sobre os atuais desenvolvimentos ele nos faz olhar pra trás, para o longo caminho que as práticas de leitura tiveram até hoje.

Diversas mudanças aconteceram ao longo da história do livro. A mais notável delas foi o advento da imprensa no século XV. A imprensa e as prensas móveis modificaram totalmente o conhecimento da época, a reprodução e a difusão do conhecimento, que até então eram reféns dos manuscritos (lentos, dependentes de monges e obviamente copiados com intuitos muito bem definidos), pôde ser reproduzido através de um processo mecânico, o que tornava essa reprodução muito mais rápida, eficaz e barata que anteriormente. As mudanças do invento de Gutenberg literal e literariamente mudaram o mundo. Apesar disso, estas alterações não foram tão drásticas, violentas e transformadoras como as mudanças que vêm chegando com os e-books.

O próprio Chatier afirma que não há precedentes para o que está acontecendo agora, para o historiador, o e-book tem peculiaridades de quebra de paradigma que o tornam totalmente distinto de seus antecessores: a forma de registrar os textos é agora totalmente distinta; as técnicas de reprodução do texto são absolutamente mais rápidas e eficazes; como a materialidade do suporte não mais se confunde com o texto (deixando o tucanês de lado, como diria José Simão, em um mesmo tablet você lê vários títulos, não há capa, formato de livro ou cor que diferencie de imediato Cinquenta tons de cinza e a Bíblia Sagrada) e o manuseio se dá diversamente dos livros comuns, fazendo com que as práticas de leitura também se modifiquem.

O e-book tem o formato e o tamanho de um livro, só não tem cheirinho bom. A grande vantagem é a capacidade, você pode ter milhares de livros em um mesmo suporte e sem ocupar espaço. Para os estudantes, principalmente acadêmicos, é de uma utilidade sem tamanho, até porque é possível contar com dicionários, gramáticas e compêndios num lugar só facilitando, e muito, o trabalho e os estudos.

Essa revolução no universo da leitura pode ser comparada à chegada da música digital (os famosos aparelhos de MP3 e as músicas em tal formato) ao mercado musical. Muitos se assustaram e as gravadoras tiveram que se reinventar pra sobreviver, acervos musicais raríssimos chegaram a pesquisadores interessados, curiosos e entusiastas de plantão baixaram discografias e mais discografias completas, fanáticos tiveram acesso a milhares de horas dos Beatles gravando em estúdio e, nos tempos atuais, grandes canções como Gangnam Style e Lelek lek lek atingiram os corações de milhares de pessoas quase instantaneamente. 

Há duzentos anos atrás, a única forma de ouvir música era estando próximo aos músicos, era um acontecimento, um ritual. A situação se inverteu totalmente, a música está em todos os lugares e nunca se escutou tanta música quanto hoje, porém ao longo do processo muita coisa se perdeu, é melhor não entrarmos em detalhes para não perdermos o fio da meada, mas é simples perceber que a música se democratizou tanto que todos estão OUVINDO música o tempo todo, no entanto eu me pergunto quantos estão realmente ESCUTANDO algo. A qualidade das produções musicais atuais talvez diga algo sobre isso.

Com os e-books atingiremos o mesmo ponto? Democratização, neste contexto, pode significar banalização? Não restam dúvidas que o livro digital é um grande passo para a democratização da leitura, mas a questão do título permanece, haverá Literatura (de qualidade) na era do e-book? E se houver, haverá leitores capazes de notar? Existindo leitores capazes, conseguirão eles encontrar essas obras de arte nesse oceano de leituras que promete ser o reino do e-book? Provavelmente só o tempo responderá a essas perguntas, enquanto isso, especulemos. 

Referências (o artigo não tem pretensões academicistas, mas é injusto não dar créditos devidos àqueles que me ajudaram a escrevê-lo):

- Aulas de Teoria da Comunicação e Teoria da História sobre Walter Benjamin, Theodor Adorno, aura, reprodutibilidade técnica e etc.
- A aventura do livro: do leitor ao navegador. Roger Chartier. Editora Unesp. São Paulo, 1998.
- Os desafios da escrita. Roger Chartier. Editora Unesp. São Paulo, 2002.


Um comentário:

  1. Muito legal o texto! Apesar da tecnologia poder trazer mais livros, no caso, para nosso dia-a-dia ainda prefiro um bom e "físico" (hehe) livro

    Beijos
    http://ma-scarello.blogspot.com.br
    @BlogdaMaira

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