Curiosidades do mundo literário - Bloqueio criativo: o pânico da folha em branco



Poucas coisas assustam mais na escrita que uma folha em branco que, por mais que você se esforce pra ter uma grande ideia, ela insiste em continuar em branco. Daí você começa a bater a caneta na mesa num ritmo monótono, olha pra cima, tem um momento de autocrítica bastante pesado... e tudo isso só serve para piorar sua dor de cabeça. Ou no mundo moderno, olhar esse traço vertical piscando onde você sabe que deveria digitar a próxima letra também é amedrontador e de certa forma hipnótico. Fiquei um minuto agora só olhando para ele, e não recomendo isso a ninguém.


Isso tudo é o tão conhecido bloqueio criativo. É claro que não é um sofrimento exclusivo do mundo literário, mas a repercussão disso na vida de um escritor costuma ser mais drástica, piorada por sua personalidade já ter um pezinho no perfeccionismo. Às vezes pode até ser fatal. Fitzgerald fez bastante sucesso aos 20 anos de idade escrevendo sobre a Era do Jazz, tendo alcançado seu maior sucesso com O Grande Gatsby. Mas aí veio o bloqueio criativo e ele morreu aos 44 anos com um problema sério de alcoolismo e decadência literária.


Em alguns casos, quando o autor consegue remodelar sua vida e voltar a escrever, o resultado costuma ser incrível. Jonathan Franzen precisou de quase uma década para escrever Liberdade, por ter tido um grave bloqueio no meio do livro. O engraçado foi que isso, de certa forma, se transmitiu na minha leitura. Tinha começado a ler, mas não estava entrando no clima do livro e a leitura estava muito lenta. Daí um dia eu acabei o encostando para fazer alguma outra coisa, e ele ficou lá por meses abandonado. Um belo dia resolvi dar uma segunda chance pra ele e retomei a leitura. Em pouco tempo já estava totalmente envolvido e li a maior parte em poucos dias. Sim, parece que o leitor também responde ao bloqueio do escritor.


Mas por que isso acontece? É claro que várias causas podem explicar isso, como sintomas depressivos e ansioso, como nos lembra a carta de suicídio de Virginia Woolf, citada integralmente aqui:

"Querido,
Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha f
elicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.V."


Mas embora isso possa explicar alguns casos patológicos, eu tenho uma hipótese mais abrangente: o acostumar-se. Acredito que um dos sentimentos que mais impulsiona as pessoas para seguir em frente é a paixão, intensa e irrefreável, como deve ser. Se você perguntar a qualquer escritor (principalmente poetas, penso eu), ele dirá o quanto é apaixonado por escrever. Na ficção, a relação com seus personagens é mais intensa que com muitas pessoas de carne e osso. Esse sentimento que fez da literatura o que é hoje. E da mesma forma que a paixão impulsiona, sua ausência é a causa da estagnação. E o que é mais ausente de paixão que uma rotina rígida, com prazos fixos e horários apertados?


E é a partir daí que eu queria propor uma forma de acabar com o bloqueio criativo: REAPAIXONE-SE. Saia de casa, converse com estranhos, leia Kerouac, leia poesia, escute música no escuro, principalmente aquelas que você gostava na sua adolescência, e cante junto (isso é importante). E escreva. Escreva qualquer coisa, só pra encher a página em branco. Mesmo que seja só pra xingá-la, mesmo que seja só pra reclamar do bloqueio, o importante é não perder a escrita. E leia. Ou melhor, releia. Pegue as melhores leituras da sua vida e se aventura novamente com elas. Não para tentar roubar uma ideia, mas simplesmente pelo prazer de ter uma boa leitura. E espere pela sua próxima grande ideia, ela virá. Pode ser que venha mais rápido ou demore um pouco, mas ficar sentado horas na sua escrivaninha não vai fazer ela se apressar.


Discursinho pseudo-motivacional a parte, pode dar certo. Mesmo se não der, no mínimo se diverte.

9 comentários:

  1. Adorei o tema abordado! Esse peovavelmente é um dos piores problemas que uma pessoa que vive desse meio literário tem de enfrentar por vezes. É normal, claro, mas é muito ruim! D:

    Beijos,
    Caroline, do Criticando por Aí.

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    1. Pois é Caroline, tema difícil, mas até comum. O jeito é tentar lidar com isso de alguma forma positiva.
      Beijos

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  2. è horrivel! kkkkk eu chamo isso de A Maldição Da Página em Branco, mas graças á Deus nunca tive um bloqueio maior que alguns mêses

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    1. Gostei do maldição do pagina em branco. Mas sabe que eu achei pior quando acontece e você está digitando. O risco piscando parece que fica evidenciando mais o tempo que você está bloqueado...

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  3. Boa noite,

    É uma situação que sempre ocorre e não é nada fácil...belo post...abçs.


    http://devoradordeletras.blogspot.com.br/

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  4. Obrigado. Bem desagradável mesmo, mas todos estão sujeitos a isso. O jeito é tenta reagir bem e tirar algo de bom disso.

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  5. Encontrei o nome do meu problema...
    Bloqueio Literário!


    Ótimo!!

    Parabéns!
    Abçs
    Fabi

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    1. Bem, não entre em pânico. Você não está sozinho hehe.

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  6. Está aí um ótimo conselho!!
    Estou no meio de alguns projetos (Um livro, alguns contos, uma peça kkk) e estou absurdamente bloqueada x_x
    Vamos ver quando eu vou conseguir superar esse terrível pesadelo kkk

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